Stencil Clark feito a partir de um desenho
de observação de uma foto de Christopher Reeve.
Só pude escrever esse artigo, que fala do mês de novembro, com a calma das férias de janeiro, sem a pressão que se tem quando há pouco tempo para descansar. Precisava de inspiração (só conseguidas em tempos e espaços calmos) para escrever da melhor forma possível sobre esse fato tão especial para mim.
Uma das paredes na Ocupação do Futuro Espaço Pantemporâneo
em dezembro de 2006. Meus primeiros stencils.
Já se passaram cinco anos desde comecei a trabalhar com arte mural ou graffiti. Com o spray em paredes para ser mais preciso. No último mês de dezembro enchi de artes as paredes de um cômodo de uma casa que pouco depois foi demolida na Ocupação do Coletivo 132. Isso me fez lembrar da minha primeira vez q peguei em uma lata de spray para fazer artes nas paredes em 2006. Motivado pelas minhas pesquisas em meu TCC, cujo tema era o graffiti paulistano, fiz meus primeiros stencils influenciado por Alex Vallauri. Um deles era o de um Chevrolet 1955 conversível e estava ansioso para usá-lo em uma parede. Estava na faculdade na companhia de um amigo e vi o muro da quadra com pixações. Era uma manhã de pouco sol, e alguns dias antes eu havia espalhado desenhos e pequenos cartazes pela faculdade que eram parte de intervenções de um trabalho que estava fazendo na faculdade de artes. Na noite anterior, dia de aula, já pensava na ideia de trazer a latinha de spray e a máscara do Chevrolet 1955 (sim, a primeira...) para fazer o graffiti no muro. E assim o fiz. Meu amigo estava ao meu lado e me viu fazer a arte em poucos segundos. Uma imagem de um carro antigo ficou estampada no muro da faculdade. O conjunto de intervenções ganhara força maior com este graffiti. Pena que um dia depois ela fora mal apagada: ainda era possível ver a imagem como se fosse de um pálido cinza.
Com 32 anos de idade e em um ambiente acadêmico fiz meu primeiro graffiti. Não foi durante a juventude ou adolescência, andando nas ruas com amigos skatistas. Fiz o caminho inverso. O que eu mais gostei dessa experiência foi a emoção. Passei a ter 17 anos naquele dia. E assim "peguei gosto" por fazer graffiti, e a segunda experiência viria logo a seguir, algumas semanas depois. Meu professor na época, o artista plástico Nelson Screnci me avisou sobre uma ocupação nos Jardins no final daquele ano. Entrei em contato com os organizadores e trabalhei durante quatro dias naquele ano no mês de dezembro. A Ocupação do Futuro Espaço Pantemporâneo foi mais uma ótima experiência (N. do A. leia mais em:
http://clark-ars.blogspot.com/2011/01/minha-participacao-na-ocupacao-cultural.html), na qual aprendi muitas coisas e conheci grandes artistas como Jorge Tavares, Vado do Cachimbo, Celso Gitahy, Emol, Nove, Ramon Martins entre outros. O mais impressionante é que só usei duas latas de spray e usei até tinta acrílica para pintar nas paredes. Lambs também não faltaram. Essa experiência porém consolidou minha linha de trabalho no graffiti que é o stencil, nas quais fiz pleno uso nos anos seguintes. Produzia novas máscaras, usava e guardava.
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As máscaras grandes, com minha personagem Dani.
Mais um trabalho na Ocupação do Futuro Espaço Pantemporâneo. |
No dois anos seguintes (2007 e 2008) produzi bem menos pois estava mais envolvido com pinturas, mas fiz pleno uso de máscaras que tinha usado na primeira vez. Tenho pouquíssimos registros fotográficos dessa época e era pego de surpresa com os convites dos amigos: não havia esboçado nenhum desenho de artes murais e também não dava tempo para fazer máscaras novas seguindo uma nova ideia. Com as artes de 2008 ainda pude produzir máscaras de minhas personagens e a frase: "Quer saber quem são elas?" Tinha uma lata de tinta latex e algumas latas de spray novas. Era muito chato pedir latas emprestadas aos amigos... A minha maior frustração é que não possuía uma câmera digital e não pude fotografar meu trabalho completo. Nem sei se ele ainda existe... As poucas fotos foram tiradas pela Cristina de Sá, a Sininho, que gentilmente as enviou.
Mais um conjunto de stencils em meu único trabalho mural em 2007.
Trabalhos inacabados e stencils espalhados pelo chão.
Foto: Cristina Sá.
Clark aparece em stencils que possuo até hoje.
Minhas personagens em destaque.
Foto: Cristina Sá.
Em 2009 comecei a lecionar na rede estadual aqui de São Paulo e em uma das escolas que eu havia um imenso muro verde e liso em uma das escolas que eu lecionava. Tive a ideia de fazer uma bela arte mural na escola. Só havia um problema: a escola era de Ensino Fundamental I (o antigo primário) e assim tive que ponderar sobre a escolha dos temas que pintaria. O obstáculo transformou-se em criatividade e assim recorri ao meu caderno de desenhos para esboçar as novas ideias que tive. Fiz um muro bastante colorido, amplamente trabalhado com o spray à mão livre. Ao mesmo tempo combinei as imagens com alguns stencils. Passei a adotar essa linha de trabalho para as artes autorizadas mais minunciosas. Considero este trabalho como o mais bonito que eu já fiz. O trabalho se iniciou em novembro de 2009 e só terminei em janeiro de 2010.
Para saber mais sobre esse trabalho veja o artigo neste blog em:
http://clark-ars.blogspot.com/2011/01/artes-murais-na-ee-theodomiro-emerich.html
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O muro que já exibi tantas vezes e em várias ocasiões.
Uma feliz combinação de stencils com figuração livre.
Sem dúvida uma de minhas artes favoritas.
A menina do centro eu chamei de "Medusinha". Arte que fiz em homenagem à minha sobrinha Marina, que, na época, não havia nascido. |
Em 2010 não fiz nenhuma outra arte mural, com o tempo, reconheci a necessidade de espalhar o graffiti pela cidade. E, assim, no ano seguinte, espalhei alguns stencils por locais como a Penha na Zona Leste de SP, Pinheiros e Vila Madalena Zona Oeste de São Paulo. Stencils de minha personagem Dani e do carro Chevrolet 1955 com a frase "Sigam os meus (des)caminhos" foram espalhados por estes locais.
Dani anuncia a chegada de um carro...
...e sua estranha mensagem...
...aparece em vários muros de São Paulo.
Dani, sentada, relaxa na Vila Sônia.
Meus amigos Johnny e Mandy sempre acenam para ela.
Dani na Vila Madalena em São Paulo anuncia novamente a chegada
de um carro e o novo trabalho que estava por vir
a algumas quadras dali...
...(Des)caminhos: Graffiti em Quadrinhos.
E o melhor estava por vir no final do ano: graffiti em quadrinhos. A primeira aparição deles foi um trabalho tosco no muro da Av. Paulo VI. Semanas depois voltei lá para apagar e restaurar a minha arte. Também recebi o convite para participar da ocupação da Escola Estadual Fabio Fannuchi em Guarulhos. Como na EE Theodomiro Emerich fiz a combinação de spray livre com stencils, porém em um tempo muito menor. Aproveitei para ver os esboços que havia feito em meu caderno de desenhos. Mais detalhes sobre esse trabalho em:
http://clark-ars.blogspot.com/2011/12/artes-no-muro-da-ee-fabio-fanucchi.html
A arte que fiz em Guarulhos na EE Fabio Fanucchi. Stencils com figurações livres.
Dia feliz com belos trabalhos, novos amigos e o carinho de uma cidade.
A Ocupação do Coletivo 132 em dezembro de 2011 foi a ocasião em que fiz o maior número de artes. Um cômodo inteiro foi ocupado por mim neste dia. Mas esse é assunto para um novo artigo...
Minha personagem Natasha em visual psicodélico
(feito com stencils) atrás de uma mesa na Ocupação do Coletivo 132.
Depois desse relato o que posso dizer sobre o graffiti em minha vida? Mais do que tudo foi renovação, não só pela arte mas pela ação em si. O risco, a adrenalina, a emoção de ver sua arte no muro nos dias seguintes, o diálogo da arte com o local e a mensagem que está contida nele. Também é muito gostoso ouvir as pessoas do bairro comentarem sobre seu trabalho e saber que ele tem uma certa fama, além, é, claro, os elogios das pessoas que passam pela rua quando me veem trabalhando. Nessa hora sinto que estou fazendo algo de realmente bom pelo povo de uma cidade. Como pude constatar quando trabalhei em Guarulhos na EE Fabio Fanucchi, quando os moradores me elogiaram muito, e até nesta ocasião a polícia elogiou meu trabalho.
Afirmo com segurança que o graffiti mudou minha vida. E de quebra fiz muitos e novos amigos com essa arte tão rica e poderosa. Novos trabalhos e artigos estão a caminho...